2ª Edição - 2010

Terceira Idade – Crônica

Tema: Ser idoso no trânsito de São Paulo.

1º lugar - Vicente Riva Funicellli

2º lugar - Decio Diniz Drummond

3º lugar - Valdevino de Souza


 

1º lugar - Vicente Riva Funicellli

Ser idoso no trânsito 

Em busca de um caminho

Lembro como se fosse hoje. Corria o ano de 1960. Papai, alfaiate, confeccionou calça e paletó sob medida para a ocasião. Meu primeiro dia em meu primeiro emprego.

Minha estreia no mercado de trabalho foi como contínuo em uma grande empresa de alimentos, cuja sede situava-se na praça Bráulio  Gomes., no centro de São Paulo. A função era simples, atribuições de entregar e organizar documentos, efetuar pagamentos- tarefas de office boy, como se diz hoje em dia. Mas já possuía carteira assinada. O que, para mim, bastava para que me sentisse um rei, cujo reinado se estendia pelas calçadas das ruas Direita, Quinze de Novembro, Sete de Abril e Boa Vista. Os bondes serviam-me como fiéis carruagens reais.

Três meses de serviço depois, fui promovido. Prossegui rei ( quer dizer, contínuo), mas mudei de carruagem.

O Jeep Willys com motorista veio para facilitar o trabalho. Meus olhos viam pelas janelas do veículo a cidade crescendo, para cima, para os lados, para onde a vista alcançasse Naquele momento, nada mais natural do que optar pelo automóvel para fazer as mesmas tarefas que seriam cumpridas com o uso do transporte público. Era reflexo do crescimento da cidade. Era positivo.

Mudei de emprego, comprei meu primeiro carro, e assisti ao encerramento dos trajetos dos bondes pelo centro da cidade. Na verdade, eles não tinham mais como trafegar. Foram engolidos pelo número crescente de automóveis. Mas não havia problema. A cidade crescia. Estávamos no caminho certo.

Vieram os anos setenta. Mudei de emprego, e também de carro. Com o Fusca, conheci as pistas das largas avenidas que surgiam na cidade. Marginal Tietê, Marginal Pinheiros, Radial Leste, Minhocão. A cidade crescia. E, apesar de uma ou outra voz discordante, estávamos no caminho certo.

Os anos foram passando. Meus empregos e carros também. As avenidas, ruas e alamedas cada vez mais repletas de automóveis. Surgiram os primeiros  congestionamentos. Indagava a mim mesmo: estamos no caminho certo? A resposta era evidente. Sim, bastava continuar crescendo.

Mas, crescer para onde?

Passaram cinqüenta anos desde aquele primeiro dia de trabalho. Já me afastei da rotina do corre- corre e compromissos. Trabalho sim, mas só de vez em quando. Mas nego a me aposentar da carreira de observador e testemunha do trânsito de São Paulo. Que, infelizmente, de solução de mobilidade, hoje traz problemas para a cidade.

Mas, durante todo esse tempo, também pude acompanhar muitas boas realizações. Implantação do estacionamento rotativo, construção das linhas de metrô, surgimento de corredores de ônibus, manutenção das linhas de ônibus elétrico, crescimento do número de taxistas, desenvolvimento da consciência ambiental.

E descobri que envelhecer é mais do que usufruir a vaga de estacionamento reservado ou receber o respeito de outros condutores.

Envelhecer significa compreender que o coletivo se sobrepõe ao individual.

Que o que é bom para todos costuma ser o melhor para cada um.

Hoje, aproveito a garagem de casa para ler e cuidar das plantas, pois aposentei de vez o meu carro. E, com o Bilhete Único, voltei a servir-me do transporte coletivo de São Paulo. Reencontrei minha cidade, e descobri que a  passagem dos anos não retirou de mim  a majestade que ostentava na minha mocidade de contínuo. Apenas o reinado de ruas e calçadas é que aumentou bastante.

Mas não tem problema. O transporte público me leva a desfrutar cada um dos mistérios e encantos que minha São Paulo revela.

Sinto que agora estou no caminho certo.

 


2º lugar - Decio Diniz Drummond

Tema: Ser idoso no trânsito 

O Centauro e Eu.

Se fosse possível prever o futuro com um minuto de antecedência, quantos dissabores poderiam ser evitados.

Em contrapartida, quantas surpresas agradáveis perderiam o sabor da novidade.

Naquela manhã, um minuto bastaria para me fazer desistir de atravessar a avenida. Nesse caso, porém, perderia a oportunidade de conhecer o centauro.

Sempre soube que os centauros da mitologia grega eram seres metade homens, metade cavalos, cuja função era a de proteger as florestas. Acredito que, com o tempo, os centauros foram passando por processos evolutivos, ou - para usar uma palavra tão em moda - por uma reciclagem, chegando ao que são hoje: seres metade homens, metade motocicletas e que não protegem nem a si mesmos.

A travessia da avenida, naquela esquina, constitui uma aventura diária, principalmente para um idoso. O fluxo de veículos velozes é constante e o semáforo muda de cor muito depressa, nunca permitindo chegar ao outro lado antes da troca de verde para vermelho.

Foi assim que, parado diante da faixa para pedestres, eu olhava atentamente para as luzes, antes de empreender com segurança a perigosa façanha de cruzar as quatro pistas.

Assim que o verde surgiu e a onda de veículos parou, pisei no asfalto. Aconteceu que tropecei naquela já minha conhecida fenda na pavimentação e, como conseqüência imediata, bati com o ombro no espelho retrovisor da motocicleta que estacionara na faixa. O espelho se soltou da base e caiu no asfalto, estilhaçando-se. O centauro desmontou, retirou o capacete e se postou diante dos cacos com um olhar ao mesmo tempo assustado e triste, prestes a chorar. Eu, parado perplexo, sem saber o que fazer ou o que dizer ( " Sinto muito"? " Desculpe-me"?). Passei em revista todas as expressões catalogadas no código tácito da convivência urbana.

Todas me pareceram vazias e inexpressivas. Optei pela ação e sugeri ao consternado motoqueiro que estacionasse a máquina e me acompanhasse a pé à loja desse tipo de acessório, existente nas proximidades, onde eu compraria um espelho para substituir o quebrado. Ele não queria aceitar, mas foi vencido pelos meus argumentos de que o verdadeiro culpado pelo ocorrido era o órgão responsável pela manutenção do asfalto, permitindo aquela fenda.

Fomos caminhando e perguntei-lhe se não considerava muito arriscada aquela atividade de motoqueiro. Surpreendeu-me ao responder e filosofar que o homem nasce geneticamente programado para correr todas as espécies de riscos.

Viver já é, em si mesmo, um risco. Quando julgamos que estamos seguros em nossas casas, estamos correndo inúmeros riscos.

Afirmou que se sentiria gratificado se soubesse da organização de um seminário de e para motoqueiros, em que fossem esclarecidos os equívocos em torno dessa atividade e em que eles próprios pudessem expor seus pontos de vista e oferecer sugestões visando melhorar o trânsito na cidade. Disse mais: que, lamentavelmente, neste nosso sistema político - social verticalizado, em que todas as decisões são tomadas de cima para baixo, temos de aceitar decretos, portarias e normas nem sempre atendendo aos verdadeiros apelos da população.

Os motoqueiros precisam de mais educação no trânsito, é verdade. Porém, eles, em sua maioria, nem sabem o que é isso.

Chegamos ao estacionamento. Ele fixou o novo espelho, agradeceu mais uma vez e se despediu. Em seguida, metamorfoseou-se em centauro, colocando o capacete e montando no veículo. Deu a partida e se foi, logo desaparecendo na floresta de carros, de ônibus e de caminhões.

Entrei em casa refletindo em que a sabedoria, às vezes se manifesta nas situações e nas pessoas  mais inesperadas.

 


3º lugar - Valdevino de Souza

Ser idoso no trânsito 

Estou acordado na cama desde as três horas da madrugada. Agora escuto o assobio dos automóveis passando na Anhanguera, já é hora de levantar.

Ligo o rádio que comprei na Santa Efigênia. Modifiquei a freqüência para ouvir a previsão do tempo direto do Aeroporto, eles erram menos. Vejo na TV como está o trânsito na zona Oeste. O dia será promissor. Sol aberto e trânsito tranqüilo nesta quarta-feira.

Tomo meu banho relaxante enquanto a água do café ferve. Coador de pano, tudo escaldado. Pãozinho do Supermercado na Lapa. Sinto o cheirinho do passado...

Hoje seria tão bom se pudesse fazer minha caminhada num lugar diferente.

Quem sabe o Parque da Água Branca... Rever amigos e quem sabe antigos conhecidos do bairro em que morei logo que me casei.

De moletom, camisa manga curta, documentos no bolso, tênis e boné, ligo o velho Fusca - ainda em boa forma - e tiro a neblina com uma canequinha que meu netinho costumava usar quando pequeno aqui em casa. Abro os portões. Cumprimento o Sr. Wilson que põe o lixo na calçada.

-       Já vai, Sr. Souza? - ele cumprimenta.

Pego os óculos no porta - luva. Olho pelo retrovisor para a frase que colei no vidro traseiro do Fusca: 'IDOSO Á BORDO'. Fecho os olhos por um instante. Ainda tem sereno!

Dobro duas esquinas. Já estou na Avenida, logo saio na nova ponte que liga o Parque São Domingos direto na Anhanguera. O asfalto está tão novinho - um veludo - que até sei o sabor do chiclete que gruda no meu pneu.

Atravesso a porta da Anhanguera. Aceno para os meninos do Posto Policial. Vejo o Supermercado. Hoje é dia de promoção... Quem sabe na volta.

Em cinco minutos estou na Lapa. Alguns carros se aglomeram. Talvez você diga que são os muitos semáforos no caminho. Eu digo que é indecisão. Preguiça de ficar num escritório fechado com tanto lugar pra conhecer.

Um outro carro passa por mim e dá um 'jóia' e dois toquinhos na buzina. Eu traduzo assim: 'O Senhor é um exemplo de perseverança'. Retribuo com um toque: 'Isso não é nada, meu jovem!.,Eles sabem que tenho o meu ritmo.

Em mais dez minutos... Já estou na Francisco Matarazzo! Vejo o Shopping com suas pracinhas... Quem sabe à tardinha. Recordo-me que toda essa área pertenceu a uma única família, muito rica, numa época anterior a minha. Ainda estão de pé alguns dos tijolos dessa história. Penso: 'O que deixei pra recordarem da minha história? Não sou rico, nem construí. Criei meus filhos de modo honesto. Trabalhei em muito escritório. Vi a cidade crescer...

O Parque está logo adiante. Nem parece que sou um idoso no trânsito de São Paulo.

Opá! O sinal fechou.

O Sol já está à mostra. Fecho os olhos por um instante.

Acordo com o bater de uma caneta no vidro do meu carro.

Epa! Acho que cochilei. Que pena! Parece que eu estava apenas sonhando na garagem de novo... Ou não.

Vejo um rapaz bem disposto sorrindo pra mim. É o meu neto que trabalha no CET me dizendo que o farol vai abrir.

Puxa! Por um instante quase acreditei que minha mente ainda corria mais rápido do que meu velho Fusca.

- Não esquece que hoje tem consulta, Vô!

Ele me dá um novo adesivo, para colar no vidro da frente: 'Este vovô é rastreado pelo CET'.

Com um neto assim, quem não consegue ser um idoso no trânsito de São Paulo!

CET PMSP-MobTrans

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